quarta-feira, 26 de abril de 2017

Escalar sentidos



Há dias em que tenho sede do que tenho ao mesmo tempo que desejo o que não está ao meu alcance. Apetece-me tocar em tudo, como se não houvesse tempo. Beijo os meus filhos e olho-os demoradamente, porque o olhar pode ser também uma mão que tenta agarrar o momento. Quando as estrelas começam a palpitar no céu, tão apressadas como o meu coração, sento-me na sala, em silêncio e sem luz. E é nessa quietude que o espírito se move livremente. Às vezes, imagino-me no sopé das montanhas que brilham à distância e o meu Anapurna aparece no meio das formas escuras, como um cenário preso por fios invisíveis. Não é por acaso que escolhi a montanha mais irascível do mundo, com as suas encostas adormecidas e picos gelados. Com a casa parada, suspensa no cume dos meus sonhos, imagino-me a escalar os seus atalhos íngremes, onde a vida não para de escorregar. Atraída pela beleza e pelo desejo do desconhecido, avanço por carreiros intermináveis, sugando em pequenos tragos o ar cada vez mais rarefeito. Tudo o que existe no mundo está coberto por uma camada de gelo, mais ou menos espessa, que me escapa demasiadas vezes ao entendimento - como uma raiz que não se vê, mas que levanta a terra subtilmente. Eu sei que nada vem da superfície, porque tudo aspira a ser mais do que é. É por isso que não me canso de percorrer as inesgotáveis encostas do meu Anapurna em busca de novos ângulos. Na imensidão inconcebível entre o céu e a terra, consigo, às vezes, vislumbrar um adejar inesperado, um sentido suspenso no ar, como uma ave a planar nas correntes de ar quente. Eu sei que para se amar o abismo é preciso ter asas e eu não as tenho. Mas, ainda assim, modelo sentidos sobre ele, porque é de lá que as coisas surgem para logo se afogarem nos confins do horizonte.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Da imprecisão das horas




Um dia tem 24 horas, mas nós dois sabemos que é na imprecisão das horas que pode estar uma vida inteira.