quarta-feira, 11 de maio de 2016

A construção de uma casa





A casa vem das mãos para ficar desabrigada
Arbusto por abrir
Sono do bicho no degrau de entrada


Daniel Faria, in Explicação das casas
 

Enquanto preparo o jantar, chamo o meu filho mais novo para uma conversa mais séria. Colocando uma certa gravidade na voz, pergunto-lhe:
- Sabes que o teu comportamento não esteve bem, não sabes?
- Sei, mãe. Mas sabes que eu ainda estou a construir a minha casa.
Arqueando as sobrancelhas, fito o seu rosto fresco, como que pedindo que desenvolva essa espécie de prelúdio que me sossega o coração.
- Mãe, a minha casa é o meu caráter. E eu ainda estou a construí-la! - exclama, com um brilho a trespassar-lhe o olhar.
Debruço-me sobre a curva do seu sorriso e coloco a mão nos seus ombros estreitos. Presa a este bem-querer, deixo-me ficar nesse largo espaço que é a proximidade, onde o amor soa no silêncio. Por fim, digo com uma voz mais doce:
- Tens razão. Mas sabes que eu também ainda estou a construir a minha? A nossa casa nunca está completa, porque somos seres sempre inacabados e imperfeitos.
- Não, mãe, a tua casa já está acabada. Só precisa de ser aperfeiçoada. Mas a minha ainda precisa de muita coisa… sabes, estou a tentar construir uma à prova de tremores de terra...
- Sim, é importante construir uma casa com uma estrutura sólida, que resista a problemas, imprevistos. Mas também é importante que seja flexível para não se desmoronar com as tempestades e os ventos ciclónicos. Achei a imagem que usaste muito bonita. Quando é que pensaste nela?
- Mãe, tu não conheces todos os meus pensamentos profundos! Todas as noites, antes de adormecer, penso na vida…
E, com este desabafo, transpõe a porta da cozinha e desaparece na curva do corredor, deixando uma lava quente de ternura a escorrer-me pelo coração.

Aproximo-me da janela e olho o céu escuro da noite, deserto de estrelas. As nuvens, sussurrando chuva, pairam sobre os telhados dos edifícios recortados pela luz turva dos candeeiros da rua. O vento fresco, que sopra sobre a cidade, forja melodias e balanceia os cumes das árvores. Observo um pedaço de papel que esvoaça alegremente de um lado para o outro e deixo os meus pensamentos seguirem o seu rumo.
Por detrás de nós, há sempre uma planta, um projeto, sonhados e traçados para se concretizarem em terra firme, numa malha de ruas direitas, de acordo com um processo linear. Só mais tarde nos apercebemos que as paredes que levantamos anos a fio, os andares que empilhamos como caixas de fósforos, o estuque que aplicamos com singular técnica assentam num balouço, numa jangada oscilante. Às vezes, é preciso consertar telhados, reforçar fundações, restaurar fachadas. Noutras, é preciso demolir muros e varrer o entulho. E, noutras ainda, é preciso reconstruir de raiz e abrir novas janelas para o horizonte, que mostra outros horizontes. Não podemos baixar os braços. Todos os dias temos de trabalhar na nossa casa, mesmo quando julgamos que somos fortes. A nossa casa não tem medida, mas é o trabalho de uma vida. Nela, cabe o universo que temos dentro de nós, um universo que balança num rio que abre um caminho para o mar. Talvez um dia lhe diga que a nossa casa é uma ilha em permanente ajuste de coordenadas, movendo-se num mar revolto de experiências. Uma ilha flutuante que, nuns dias, rompe fronteiras e, noutros, encalha em bancos de areia. Negá-lo seria não aceitar a nossa mutabilidade, os nossos erros e acertos. Negá-lo seria deixar-se aprisionar dentro das paredes que erguemos, como um animal enjaulado. A nossa casa nunca estará terminada. Talvez um dia lhe fale nisto. Por vezes, é preciso deixar-se levar pela corrente, confiando que qualquer praia será boa para nós, acreditando que, independentemente das circunstâncias, daremos sempre o nosso melhor. Mas a verdade é uma vasta gama cromática de cinzentos e ainda é cedo para lhe falar nisso. Afinal, ainda só tem onze anos…


34 comentários:

  1. Miúdo giro. Sai à mãe... :)
    Um beijinho, querida Miss Smile.

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    1. Ele é giro, sim senhora. É por isso que eu acho que sai à mãe e ao pai :)

      Um beijinho, querida Teresa

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    1. Eu também :)

      Um beijinho, Mãe Sabichona

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  3. que maravilha de pensamento e de conversa e de texto...

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    1. Obrigada, Laura. A conversa deu pano para mangas :)

      Um beijinho

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  4. Que momento e que partilha maravilhosa:).
    O teu filho ainda esta a contruir a sua casa, é certo, mas tenho a dizer-te que já construiu umas excelentes e sólidas fundações.
    Fica um beijinho enorme para vocês, extensivel ao resto da família.

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    1. Assim o espero, querida Sandra. O parecer de uma arquiteta deixou-me mais descansada :)

      Um beijinho e obrigada pelas tuas palavras sempre tão generosas

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  5. Que bela conversa e que sábios pensamentos, Miss Smile!

    É com 'arquitectos' assim, tão conscientes das necessidades inerentes à reconstrução eternamente in)perfeita, que aprendemos a ir construindo a nossa casa.

    Tenho a certeza que a casa desse menino, de onze anos, já tão responsável, será uma casa alicerçada em bases sólidas e simultâneamente flexíveis, que lhe permitirão uma habitabilidade segura e confiante.

    Um beijinho, Miss Smile, bom resto de dia! :)

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    1. Aprendemos muito com as crianças. Não que elas nos queiram ensinar alguma coisa, nós é que podemos retirar alguns ensinamentos das suas observações. A sua perspetiva do mundo e de si próprias convida-nos a muitas reflexões.
      Também achei interessante pensar no nosso caráter como uma casa que precisamos de cuidar.

      Um beijinho, Janita

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  6. Tenho um neto que tem tiradas do género: Avó é o círculo da vida..., ou quando eu pergunto o que se passa no filme: É só a destruição do universo, nada de especial...:)
    Para ele , a filosofia da vida é algo de inexorável...

    Nós vamos construindo as nossas casas...mas é um trabalho muito duro por vezes...
    Bjinho

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    1. As crianças estão sempre a surpreender-nos. As tiradas do seu neto fizeram-me sorrir :)
      É verdade, vamos construindo as nossas casas ao longo de toda a vida, o que requer algum esforço, entrega, honestidade, sentido da proporção e muita intuição.

      Um beijinho, Virginia

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    2. Hoje quando lhe fiz um elogio pela simpatia com que me acompanhou ao Botanico, respondeu: Ó Avó não tem segredo: é charme natural!
      Ri-me à gargalhada. Este vai para o teatro ( já está no ballet e adora) com certeza!!

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    3. Claro! O charme natural - uma palavra desconcertante, um sorriso, um olhar, um mistério insinuado – tudo o que é preciso para derrubar muros e conquistar mundos :)
      Um gentleman, o seu neto.

      Um beijinho, Virginia

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  7. eu fiquei assim... nem sei, embargada.
    um beijinho,
    Mia

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    1. Espero que por bons motivos :)

      Um beijinho, Mia

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  8. E lá fiquei outra vez sem palavras...:)

    Um beijinho, Miss Smile, para si e para o pequeno príncipe.

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    1. Por vezes, um silêncio cúmplice diz mais do que mil palavras :)

      Um beijinho Princesa

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  9. Oh Miss Smile, quanta ternura e para um menino de 11 anos já tem muitas paredes construidas e bastante sólidas por sinal. Beijinho

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    1. É um miúdo perspicaz. Gosta de fazer perguntas e de argumentar sobre o conteúdo das respostas que lhe dão.

      Um beijinho, GM

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  10. Que belo texto, com tanto frescor e profundidade...Prazerem conhecer seu blog.
    Bíndi e Ghost

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    1. Obrigada, Bíndi e Ghost, bem-vindos ao blog :)

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  11. Onze anos mas já com ideia próprias, uma cabeça limpa.
    Beijinhos

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    1. É verdade, tem um espírito crítico desenvolvido, o que eu considero muito positivo.

      Um beijinho, Pedro

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  12. A casa nunca está acabada mas os alicerces sim e eles podem segurar várias coberturas, quando penso em educar filhos fico-me pelos alicerces e ainda assim...sem ter a certeza que os fiz sólidos.
    ~CC~

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    1. É verdade. Como mães, fazemos o melhor que podemos e sabemos, mas não temos certezas.

      Um beijinho, CCF

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  13. ~~~
    Um belo e 'rico' filho...

    Beijinhos para ambos.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. São os nossos filhos que nos fazem ricas :)

      Um beijinho, querida Majo

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  14. Olá, Miss Smile.
    Poderia ser uma cena de filme, de tão bem arrematada. É preciso cuidado com ele: além de inteligência, tem um poder de argumentação e uma facilidade para cativar corações...
    Tens certeza que são 11 anos?
    ;)

    bj amg

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    1. De acordo com as minhas contas (certíssimas), eram 11 anos, na altura. Agora, já são 12 acabadinhos de fazer :)

      Um beijinho, Carmem

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  15. Querida Miss Smile, já tinhas saudades da melodia das suas palavras.
    Como comentar algo que está tão perfeito e vai ao encontro do que penso e não sei expressar assim.
    As crianças têm a sabedoria da inocência e aprendemos tanto com elas.

    Um beijinho grato



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    1. Obrigada, querida Fê. Quando há sintonia de pensamentos e afetos, não são necessárias muitas palavras.

      Um beijinho grato :)

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  16. Pela sua sinceridade, espontaniedade e ternura,falar com as crianças é muito enriquecedor.

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    1. Sem dúvida. Com elas, reaprendemos a olhar o mundo com olhos de ver...

      Um beijinho, Benó

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