sábado, 16 de abril de 2016

O que é uma morte bonita?



Lembro-me de ouvir a minha avó comentar a propósito da morte de algum familiar ou conhecido que aquela pessoa tinha tido uma morte bonita. Aquela observação intrigava-me e punha-me a pensar no que seria uma morte bonita. Nada do que eu vira ou observara até à data me permitia chegar a tais conclusões. Revivia mentalmente as visitas que a minha avó fazia às amigas acabadas de enviuvar e procurava um gesto, um pormenor que me desvendasse aquele mistério. Naqueles tempos, sempre que passava temporadas em casa da minha avó, eu tornava-me na sua sombra e acompanhava-a para todo o lado. Mas, dizia eu, que o que eu via no rosto desfeito das viúvas era um enorme anel de tristeza, em redor de si mesmas, que não coincidia com a descrição da minha avó. Ora, se o ente querido tivera uma morte bonita, porque estavam elas irremediavelmente tristes? Lembrava-me também do peru que a minha avó matava no Natal, depois de lhe ter despejado um copinho de aguardente pelo bico adentro. O animal cambaleava de olhos semicerrados, derramando as asas pelo chão. Mas mesmo no avançado estado de alcoolemia em que se encontrava, eu via como ele se debatia pela vida, sacudindo-se estridentemente, enquanto a morte se arredondava à volta do seu corpo. E, depois, havia ainda o cãozinho Tonicha que adoecera subitamente e que, ao fim de dois curtos dias, morrera. Também nele, na cabeça pousada de lado, nos olhos mortiços, na cauda muda, esquecida no chão, e na morte encavalitada no focinho eu não via nada de bonito. Assim como não foi bonito o dia em que o enterrámos no quintal, por baixo de uma nespereira, ao lado da burra Inácia que morrera de velha, e todos os outros dias que se seguiram, que trouxeram consigo incessantes vagas de tristeza. Como achar uma morte bonita quando a nossa vida está atada àquelas que acabam? Sem conseguir chegar a qualquer conclusão por mim, indaguei, um dia, a minha avó sobre essa questão. E a minha avó explicou-me, dando os exemplos do tio Alberto, que se finara enquanto dormia, e da prima Eduarda e do primo Ernesto que viveram mais de sessenta anos juntos. Quando o primo Ernesto faleceu, a prima recompôs-se, mas acabou por morrer de morte natural ao fim de pouco tempo. Para a minha avó, esta era uma morte bonita, porque a vida deixara de fazer sentido para a prima Eduarda e fora a sua vontade que quebrara o curso da vida. As palavras da minha avó fizeram-me sentido na altura, mas também é verdade que o que julgamos que aconteceu não é, na maioria dos casos, o que realmente aconteceu.

Hoje, que sei menos do que sabia naquela altura, continuo sem ter a certeza se existem mortes bonitas. Na verdade, como sabê-lo se a morte é uma coisa que não pode ser vivida? Como pode uma coisa, que está fora da nossa existência, ser vivida? A morte acompanha a vida. Essa é a única certeza que a vida nos dá. Mas talvez o que importa ter presente é que há vida antes da morte e que são as vidas que podem ser bonitas. E as vidas bonitas vão para além do que vemos nas capas das revistas, nas reportagens fotográficas dos bloggers de sucesso, nos feitos hiperbólicos apregoados pelos palcos deste mundo. Uma vida bonita pode ser a minha, a tua, a de todos nós se soubermos respeitá-la, sacralizá-la, amá-la. Porque uma vida ética basta-se a si própria. Não precisa de uma morte bonita.


34 comentários:

  1. Uma expressão interessante, morte bonita.
    Parece-me que para a sua avó, Miss Smile, no seu saber acumulado, uma morte bonita era aquela em que se fechava a porta de forma natural, sem alaridos, com dignidade.
    Uma bela reflexão sobre a vida.

    Um bom final de semana :)

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    1. Para a minha avó uma “morte bonita” era o fecho sereno de um ciclo, uma porta que se fechava pacificamente, depois de se ter tido uma vida preenchida e cumprido uma missão. Naquele tempo, as pessoas conviviam mais com a morte. Os filhos tratavam dos pais idosos até ao fim dos seus dias e a morte era encarada de uma forma mais natural.

      Um beijinho, AC, e um bom fim de semana

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  2. Friamente, "morre-se, e pronto...". Entendo a morte como o fim de um ciclo, principalmente quando alguém chega à "linda idade" de 98 anos, como o "ti" Henriques. Mais logo, às 3, espero dizer-lhe adeus. Terá sido uma "morte bonita", "descansada"?... Gostei do texto.

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    1. A minha avó teria concordado consigo que 98 anos é uma bonita idade para se morrer. Quanto ao resto, não sabemos. Ainda que possamos estar acompanhados e rodeados dos que nos são mais queridos, morrer é sempre um ato solitário. Espero que o “ti” Henriques tenha muitos amigos presentes neste dia de despedida.

      Um beijinho, Carlos

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  3. As palavras para além de mensagens, são também imagens que queremos transmitir. Se for tranquilizante dizer que alguém teve uma morte bonita, pois que se continue na ilusão dessa imagem, ainda que nada seja capaz de colorir a aura de tristeza e nada seja capaz da substituição da perda.

    Fica a ilusão de uma serenidade.

    Bonita reflexão, Miss smile!

    Bom fim de semana,
    bjnhs

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    1. Concordo. É um pequeno consolo, um apaziguamento que ajuda a atenuar a crueza da perda. E há casos em que o sofrimento de quem está "às portas da morte" é tão atroz que morrer acaba por ser um momento de misericórdia.

      Um beijinho e um bom fim de semana, mz

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  4. também me falavam dessa morte. guardo a ilusão de que a minha avó materna (que saudades tenho eu dela. uma mulher extraordinária) teve uma morte "bonita". morreu com 97/99, a dormir, aparentemente de nenhuma doença, "apenas" o corpo que estava gasto...

    a partir daí, só tive mortes feias, algumas terríveis. é a vida, certo?


    um abraço forte.

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    1. A minha avó materna era também uma mulher extraordinária. Eu estava ao lado dela quando faleceu. Nessa manhã, disse-me a mim e à minha mãe que não almoçaria. E, de facto, morreu nesse dia, antes da hora do almoço. Morreu de uma forma serena. Não sei se foi uma “morte bonita”. Para mim, não foi. Morreu agarrada à minha mão…
      E é por ela, pelos meus pais, pelos meus filhos, que tudo faço para que a minha vida seja bonita. É o que de mais precioso lhes posso dedicar.

      Um abraço muito apertado, querida Flor

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  5. Acho que a morte bonita existe para quem fica, apaziguando os nossos corações. A minha avó não teve uma morte bonita mas lembro-me de ficar mais consolada por sentir que, no meio de muitas dificuldades, ela até teve uma vida bonita. Beijinhos

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    1. Penso que será essa a explicação. A expressão serve para nos consolar daquilo que, na verdade, é inconsolável. Talvez fizesse mais sentido dizer, sempre que alguém morre, que essa pessoa teve uma vida bonita – que fez o melhor que sabia e podia da sua vida.

      Um beijinho, Mãe Sabichona

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  6. Conheço o termo, em regra aplicado a quem morre durante o sono, ou, o que parece sê-lo.
    Há pessoas que sofrem muito com dores e dificuldades físicas variadas e que, para além do sofrimento, trazem indignidade ao ser moribundo. Quando se morre sem essas dores e sem esses "transtornos físicos", é uma morte bonita.
    Pois que, o fim não é bonito. Mas se for sereno, pelo menos tão feio não é.
    Há quem não tema a morte, mas os momentos(que podem se estender no tempo) que a precedem.
    Ao coração de quem perde, a morte nunca será bonita.
    Eu quero que os últimos dias que meus olhos vejam sejam de sol radiante e temperatura agradável, para que regozije o velho olhar, sedento de sol e luz. Não quero por última lembrança o cinza de um inverno chuvoso.
    Quero poder comer, ainda que seja em porções como se alimentasse um passarinho, de comida perfumada e sopa quente, regada com sumo de laranja natural que me possa molhar os lábios.
    Quero ouvir música que se alterne entre um piano de Chopin ou uma sonata de Beethoven e Maria Bethânia, que me emocione sem limite dando voz à poesia.
    Então, que o sono me pese os olhos e me engane, a sussurrar-me que no dia seguinte, ainda deixará que o sol mos ilumine.
    Seria uma morte bonita.

    bjn amg

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    1. A “morte bonita” está associada à ausência de sofrimento, mas, como diz, é sempre um fim e os finais felizes são aqueles que acabam sempre com um “felizes para sempre”. Para quem fica, a morte não é bonita. É muito difícil aceitar uma partida sem retorno.
      Querida Carmem, eu também gostaria que a minha despedida fosse assim tão bonita como aquela que deseja para si. Eu, que sou completamente apaixonada por Bach, acho que preferiria Beethoven num momento desses, pois na sua música está tudo, o mundo inteiro, a vida inteira. Em Beethoven não há auto-compaixão.

      Um beijinho com carinho

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  7. Querida Miss Smile.
    Mais uma vez o seu texto pôs-me a pensar...
    Sempre lidei mal com a morte,talvez porque a única avó que conheci morreu quando eu tinha 13 anos, numa aldeia onde a morte era chorada e velada até à exaustão.
    Isso marcou-me e desde então sou incapaz de ir ver uma pessoa ou animal sem vida.
    Quando o meu pai faleceu o ano passado enquanto dormia a sesta, essa imagem permanece ainda em mim como se fosse ontem.
    A minha mãe costuma dizer que ele teve uma morte santa, mas para mim a morte continua a ser algo difícil de assimilar.
    Já uma vida bonita consigo visualizar e todos os dias tento alcançar.

    Um beijinho com carinho

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    1. Não é fácil lidar com a morte, que chega sempre cedo demais. Mas eu também penso assim – aproveitemos aquilo que temos, que é vida, a única realidade que conhecemos. A vida existe simplesmente. Compete-nos a nós maximizar a sua qualidade.

      Um beijinho, querida Fê

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  8. Por aqui usa-se o termo "morte santa", no sentido de que a pessoa morreu sem sofrimento. Nunca pensei muito na morte, especialmente na minha, mas desde que o meu pai morreu, vai fazer dez anos, a morte passou a estar presente. Não tenho medo de morrer, mas de sofrer, tenho.

    Os seus textos trazem sempre momentos de reflexão.

    Bom fim-de-semana, Miss Smile:)

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    1. À medida que vamos envelhecendo, a ideia da morte vai tornando-se menos abstrata e mais presente. A partir de uma determinada altura, começamos a perder os amigos, os pais… Quando os pais partem, a ideia da morte torna-se mais concreta, porque sabemos que, de acordo com a lei natural da vida, nós somos os próximos na linha de partida.

      Um beijinho, Isabel, e um bom fim e semana

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  9. Existem mortes muito violentas, que trazem imensa dor à pessoa antes de partir. Talvez, 'a morte bonita' tenha esse significado. Partir sem dor.

    Mas concordo consigo, Miss Smile. Independente dos anos que cá estamos, a nossa vida é lugar bonito. Basta observar o mundo pela nossa janela. :)

    Deixo-lhe um beijo. :)

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    1. Sim, talvez seja isso, partir sem dor. Mas será que existe mesmo?
      A vida pode ser um lugar bonito. Conheço pessoas que não tiveram e não têm as melhores vidas, mas que, ainda assim, não se demitem de cuidar do jardim que é a sua vida. Quanto a mim, estou determinada em tornar a minha num lugar onde gostaria de passar o resto da minha vida.

      Um beijinho, Castiel

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  10. ~~~
    No fundo, é o que todos nós desejamos, partir sem dores, nem aflições e com dignidade...

    É assim que devia ser para todos os seres sensitivos, contudo, só os animais estão com direito à eutanásia.

    Espero que a presente abordagem à pratica da eutanásia em humanos, chegue a conclusões seguras e efetivas.

    Boníssimas e ternas as memórias da avó algarvia, com a qual aprendeu a conhecer o mundo...

    ~~~ Querida Smile, um abraço de grande amizade. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Quem tem ou teve uma avó, tem um mundo indizível no coração. Eu aprendi muito com a minha e ainda hoje recordo com saudade o marulhar macio da sua voz. Éramos muito cúmplices e, nas suas últimas semanas de vida, contou-me toda a sua vida, como se estivesse num confessionário. Na altura, ainda não o sabia, mas, hoje, tenho a certeza que ela pressentia que estava de partida.
      Quanto à questão da eutanásia, é um assunto muito delicado, que merece ser discutido com o máximo de rigor e responsabilidade, porque é mesmo um caso de vida ou de morte. E há quem esteja vivo, mas já tenha morrido há muito tempo.

      Outro abraço de amizade, querida Majo

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  11. "Uma morte bonita", Conheço o termo. Será bonita para quem parte sem sofrimento mas para quem fica a suportar a perda nunca será bonita, não. Nascemos para morrer mas dificilmente nos habituamos a esse pensar.Um belo texto para reflexão, Miss Smile.

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    1. Há culturas que aceitam a morte com maior naturalidade. Os mais idosos são, inclusive, tratados com mais respeito e deferência, porque acumularam muitos anos de sabedoria. A sociedade ocidental está a tomar um rumo oposto, perdendo-se no culto extremo da juventude. Está-nos a escapar tanto saber, porque remetemos os mais idosos para o silêncio. O conhecimento está nos livros, mas a sabedoria está nas pessoas, sobretudo naquelas que já cá andam há muitos anos. Uma sociedade que não reconhece o potencial dos seus idosos, é uma sociedade que está à deriva – não sabe de onde vem nem para onde vai.

      Um beijinho, Benó

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  12. Miss Smile,
    Em vez de morte bonita, a minha avó dizia morte boa. Continuo a ouvir esta expressão e às vezes também a utilizo para referir uma morte que aconteceu de repente, muito em particular durante o sono e sem que a pessoa estivesse em sofrimento.
    Apreciei particularmente a tua reflexão.
    Sim, uma morte bonita não acrescenta nada ao dignificar da vida, mas daria imenso jeito. E isto não tem uma nesga de tom jocoso. Apenas quero dizer que gostaria de morrer dessa forma, de repente, sem dor, sem sofrimento arrastado.
    Continuação de bom fim-de-semana!
    Beijo

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    1. Tens razão, Isabel, daria imenso jeito. Penso que todos nós acalentamos o desejo de partir dessa forma, sem sofrer e sem pesar nos nossos.
      Há também a expressão “morreu como um passarinho” ou “viveu mais silenciosamente do que morreu”, ocorre-me agora. Talvez precisemos destes eufemismos para atenuar a dura realidade que representa a morte e para a qual raramente estamos preparados. Por isso é que existe também a expressão “ser apanhado desprevenido pela morte”. Na Alemanha e Suíça, visitei vários castelos de origem medieval e não pude deixar de reparar que as camas dos reis e nobres eram muito pequenas, parecendo quase camas de criança. Isto porque os reis dormiam sentados, pois acreditavam que, se dormissem deitados, não voltariam a acordar. O estar deitado era a posição de excelência dos defuntos.

      Um beijinho, Isabel, e continuação de um bom fim de semana

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  13. Morte bonita, acredito e se puder escolher...será essa a minha opção!
    Beijinhos

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    1. Penso que, se pudéssemos escolher, seria a opção de todos nós. Quanto a ser verdade, eu não sei se existe. Mas podemos acreditar no que quisermos,

      Um beijinho, Papoila

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  14. Bonito não é um adjectivo que se adapte à noção de morte. A morte é um fim, mas num um final feliz. Sobretudo para os que ficam.
    Bjinho

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    1. A morte é um fim e há quem diga que, quem tem medo da morte, tem medo da vida. Pois eu não sei se será exatamente assim. A morte é uma inevitabilidade, mas será sempre um momento de dor - para os que partem e para os que ficam.

      Um beijinho, Virginia

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  15. a minha avó falava em morte santa, ou dizia "foi como um passarinho"... já matei um passarinho, por acidente, mas nã sei se foi assim tão tranquilo...

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    1. Não foi de certeza - para ambos :(
      Felizmente, nunca me aconteceu uma coisa dessas.

      Um beijinho, Manel

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  16. A expressão que conheço é «morte santa», que entendo ser aquela que chega sem que a pessoa tenha de sofrer muito, nem por muito tempo...

    Mais uma história magistralmente contada.

    Um beijo, Miss Smile

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    1. "A morte vem de longe
      Do fundo dos céus
      Vem para os meus olhos
      Virá para os teus
      Desce das estrelas
      Das brancas estrelas
      As loucas estrelas
      Trânsfugas de Deus
      Chega impressentida
      Nunca inesperada
      Ela que é na vida
      A grande esperada!
      A desesperada
      Do amor fratricida
      Dos homens, ai! dos homens
      Que matam a morte
      Por medo da vida."

      Vinicius de Morais/Morte

      É esse o entendimento que se dá à expressão, mas não sabemos se, para quem a "vive" é mesmo assim...

      Um beijinho, Princesa, e obrigada

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  17. A morte é a última paragem da vida. É a única verdade absoluta e inequívoca que conheço.
    Que venha ligeira e se esfume num sopro, é o que mais desejo.

    A morte é um tema que não consigo digerir ainda com muita naturalidade. Mas apreciei muito o seu testemunho.

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    1. “A morte chega cedo,
      Pois breve é toda vida
      O instante é o arremedo
      De uma coisa perdida.”
      (…)

      Fernando Pessoa/A morte chega cedo


      A morte é precisamente a única certeza que temos e que tememos. E embora tenhamos uma vida inteira para nos habituarmos à sua inevitabilidade (e nem todos têm), quer-me parecer que ela vem sempre cedo demais.

      Um beijinho, Maria Flor

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