domingo, 18 de junho de 2017

Natália



A presença de Natália nunca foi pacífica no salão de cabeleireiro que a minha mãe frequentava. Natália, que era a mais recente contratação de Dona Lurdes, a proprietária do estabelecimento, nunca foi verdadeiramente aceite pelas duas colegas, Aninhas e Esmeralda. A sua presença desencadeava um cortejo de maledicências sussurradas às clientes e risinhos de troça mal abafados quando deixava cair uma escova ou um rolo de cabelo no chão. A minha mãe explicava-me que as colegas tinham uma pontinha de inveja de Natália por esta ser muito bonita e por andar sempre muito bem arranjada. Eu achava que ela se parecia com uma atriz e que a sua elegância não destoava das famosas que eu via nas revistas espalhadas pelos sofás e mesinhas baixas do cabeleireiro. Usava o cabelo louríssimo caído em ondas largas até meio das costas, maquilhava-se com esmero e usava umas saias curtas que lhe realçavam as pernas altas e esguias. Tinha um cheiro a flores que parecia estar dentro da pele e ria com o corpo todo, como as crianças. Mas o que eu achava mais bonito nela era a claridade do rosto e a alegria que irradiava dele. Vangloriava-se que tinha muitos apaixonados, que os homens andavam à volta dela como borboletas, mas não prescindia da liberdade de ir a jantares, festas e passeios, quando e com quem lhe apetecesse. As colegas reviravam os olhos perante o desaforo daquele modo de vida e Dona Lurdes, banhada em pudor, tentava dar novo rumo à conversa, evocando o calor desmesurado, os vestidos que se usavam naquele verão, a estreia da telenovela brasileira e o preço da garoupa na praça. Mas as clientes, ávidas de arrancar mais significados às histórias que Natália contava, insistiam, Continue, continue, menina, e Natália não se fazia rogada, descrevendo os esboços dos sonhos que estas sonhariam à noite. Os jantares elegantes, as festas delirantes, os cavaleiros andantes, os apelidos de sonoridade aristocrática ou estrangeira, as flores, estava sempre a receber flores, os carros com estofos de pele, os restaurantes que ninguém conhecia, as cores e os volumes de uma cidade que parecia não dormir. Aqueles relatos agitavam, em ondas febris, o mar adormecido daquele cabeleireiro de bairro. E a clientela não parava de aumentar. As senhoras sentavam-se nos sofás verdes e não se importavam de esperar, escutando Natália com dissimulado alheamento, enquanto folheavam revistas que não liam. Talvez tenha sido por isso que Dona Lurdes desistiu de interferir na conversa, agradada com tanta afluência. É claro que a minha mãe achava aqueles conteúdos algo impróprios para a minha idade e, não podendo tapar-me os ouvidos, tentava desviar a minha atenção, perguntando-me, com exagerado desvelo, se, para o lanche, preferia um bolinho ou um gelado. Mas eu tinha os ouvidos bem treinados. Ouvia a minha mãe com um ouvido e Natália com o outro.
Um dia, quando lá voltamos, a minha mãe e eu, descobrimos que Natália se fora embora. A Aninhas, a cabeleireira mais antiga da casa, não perdeu tempo em nos pôr ao corrente da situação. Uma cliente, em conversa com uma amiga de uma amiga, descobrira por acaso que Natália tinha uma vida muito diferente da que apregoava. Vivia com o pai, já muito velho e inválido, numa casa arrendada da periferia. Com a voz saturada de desprezo, Aninhas repetia que tudo não passara de um chorrilho de mentiras e que Natália era uma impostora. Eu achei a sua história verdadeira muito triste. Imaginei-a em casa, sozinha e cansada, a cuidar do pai, muito velhinho e doente. Lembro-me de ter pensado que, na verdade, Natália não fizera mal a ninguém. Com as suas histórias, que podiam encher livros, apenas criara o que faltava à sua vida. E isso era o que eu, os primos e os amigos fazíamos também. Quando estávamos juntos, nas nossas brincadeiras, nunca éramos só nós. Trazíamos de casa a realidade nas mãos e, onde quer que fosse, na rua, no jardim, na praia, moldávamo-la e aperfeiçoávamo-la, reinventando-nos. Era assim que fazíamos crescer a alegria, porque tínhamos aprendido nos livros que os sonhos, aqueles que se misturavam à vida, eram para se sonhar acordados. Natália apenas inventara uma vida para atenuar o peso de um destino já escrito. Mas claro que os adultos não perceberam nada. Já estavam todos esquecidos desses mistérios.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

A curandeira



A minha mãe diz-me ao telefone que preciso de amor para curar o coração. Leio-lhe os pensamentos, mas ouço apenas a sua voz. Imagino-a com uma expressão antiga parecida com preocupação. E eu obrigo-me a dizer-lhe que, por baixo da camisola que trago vestida, da pele que se veste de sardas, o meu coração respira saúde. Conheço-o como a palma da minha mão e nem preciso de olhar lá para dentro para lhe saber o bater feito de muitas línguas. É certo que levei algum tempo, mas acabei por aprender todas elas. Conheço-lhe as zonas sensíveis, os desejos insensatos, os recantos a vermelho-escuro onde dói mais. É verdade que já me inspirou cuidados. Mas o meu coração é um guerreiro. Já sobreviveu a muitas tempestades. Houve alturas em que tive de retirá-lo à força do cubículo sem janela de onde não queria sair. Os corações têm esse defeito. Teimam em ver as coisas à sua maneira. Na verdade, são músculos que lutam como os outros. Quando tentava agarrá-lo, escorregava, teimoso, na minha mão. Tive de o puxar, torcer, dominar. De todas as vezes que tive de intervir e sopesar a sua robustez abalada na palma da minha mão, deu-me sempre luta. Mas com determinação, estanquei-lhe a dor, lavei-o com água de rosas e alfazema, apliquei-lhe uma loção de aloé para cicatrizar e, por fim, enrolei-o em açúcar mascavado, que se me colou às mãos como areia molhada. Não me esqueci também de lhe repetir palavras novas todas as noites que lhe permitissem sobreviver nesse labirinto espiralado que são as emoções. Com a devida paciência, um coração acaba por ganhar a forma das coisas que estão para vir. Não quero com isto dizer que os corações se enganam. Nunca há engano. Mesmo quando há uma parte de ilusão, o que se amou, quando se amava, é sempre verdade. Embora tenha sido sua curandeira, a magia esteve sempre nele. Sei que confia em mim, mas conheço-lhe a insensatez e o esquecimento de todos os cuidados. Sei que que nunca desistirá de aguardar que a minha atenção falhe para escapar. Ainda assim, estimo-o como um velho amigo, pois é nele que se nidifica a minha outra metade. E, além disso, o que seria dele sem mim?


terça-feira, 6 de junho de 2017

No amor



Todos os momentos são perfeitos. E se não forem, é a imperfeição que está em nós. Porque queremos mais do que é possível ter naquele momento.