domingo, 6 de agosto de 2017

Como um pássaro que nos escapa



A luz filtrada pelas cortinas verde-água escorre pelas paredes cor de âmbar. Junto à janela, uma poltrona imponente e usada acomoda a minha mãe que se deixou derrotar pelo sono. Sobre a cómoda escura está uma jarra de rosas pálidas que a minha tia colocou de manhã. Lá fora, ouve-se um som de sinos. Estou sentada numa cadeira ao lado da cama onde está deitada a minha avó. A minha avó já não tem palavras, já nem sequer tem olhar. Passa os dias de olhos fechados. Penso que deixou de querer abri-los. Afastada de nós e de tudo o que foi um dia, já quase que não passa de uma recordação. Parece que dorme ou que se esqueceu de tudo, não sei. A nossa vida é um rodopio quieto à sua volta. Todas as manhãs, as mãos hábeis das filhas despem-na, lavam-na, vestem-na outra vez, alimentam-na. Pegam nela ao colo para mudar a roupa da cama. Já não pesa. Tornou-se leve como uma criança, que não gosta de comer. O relógio de parede rói as horas dos dias, e o corpo da minha avó escorrega lentamente para um lugar desconhecido, para um silêncio cada vez mais espesso. A minha avó tem agora as palavras coladas ao céu-da-boca e esquece-se de nós. E nós, todos os dias morremos mais um bocadinho para ela. E, contudo, foi ainda há tão pouco tempo que eu, de joelhos sujos e arranhados, corria para ela para contar a surpresa de um louva-a deus ou os pesadelos da noite que ela prontamente afastava, acariciando-me as costas. Eu cresci, e a minha avó envelheceu. Parece simples, mas não é. Não compreendo como é que se desliza tão depressa para tamanha ausência.
Uma moto passa, roncando direito à vida. Deixo a penumbra fresca do quarto virado a nascente, onde o verão parece adormecido. Saio para a explosão solar do dia. Vejo o muro caiado, as sombras das árvores espalhadas como frutos tombados, as flores vermelhas, laranjas e amarelas a brotar ao sol, o atalho florido que conduz às colmeias. Tudo está como sempre esteve. Só os meus olhos é que estão magoados.
Volto para dentro. A minha mãe ainda dorme, a respiração regular, o corpo exausto, caído sobre um dos braços da poltrona. Aproximo-me da avó e aconchego-lhe a roupa da cama. Com a mão, como se desfizesse ondas invisíveis, aliso a colcha dos lados, em redor dos contornos das suas pernas magras. Não chego às marés que lhe estão nas profundezas do coração. Na sua atual vida submarina, tão fora do meu alcance, imagino uma pirâmide de conchas - perdas, alegrias e dores antigas -, umas dentro das outras, e lá no fundo, o coração da minha avó a pulsar como a carne húmida de um molusco. Aperto-lhe a mão gelada com força, mas, na verdade, eu é que estou a precisar de ânimo. Pego no livro pousado sobre a mesa-de-cabeceira, apinhada de medicamentos. Começo a ler-lho em voz alta. Quero continuar a pensar na minha avó como alguém que está vivo. Quero que ouça a minha voz, quero manter-me viva para ela. Não vou deixar que o fio da nossa história se rompa. Todos os dias lhe repito que gosto muito dela. Repreendo-me por não lho ter dito mais vezes, quando ela era ainda ela. Perto do fim, quando tudo nos parece irremediavelmente perdido, achamos sempre que não amamos o bastante, que não dissemos todas as palavras que precisavam de ser ditas. A proximidade que tivemos não nos parece suficiente, como se tivéssemos caminhado no mesmo passeio, mas do outro lado da rua. É difícil aceitar que o amor é algo simultaneamente perto e longe.
Agora que a minha avó já morreu há muitos anos, consigo ver mais perto. É preciso tempo para aceitar que existirá sempre demasiadas coisas que não soubemos viver com perfeição. Provavelmente, quase tudo. A vida, aquela que anda colada a nós, assemelha-se a um pássaro que nos escapa. Ainda assim, acabei um dia por aceitar que eu e a minha avó fomos, juntas, tão longe quanto nos era possível ir.