segunda-feira, 31 de julho de 2017

O corpo



Sentada na esplanada, observo a rua ainda meio adormecida. Ouve-se apenas o rumor espaçado dos carros, a melodia que o varredor trauteia sozinho, um cão a ladrar ao longe. A manhã cheira a mar e o azul do céu está mesclado de espuma branca. Gosto da brancura das manhãs. É também assim que o verão começa. No terceiro andar do prédio em frente está uma mulher à janela. Vejo-lhe os braços flácidos que penduram umas peças brancas na corda, a expressão estremunhada, o alto da cabeça, o cabelo pintado com as raízes à mostra, a boca cheia de molas coloridas. Veste um avental semeado de estrelas brancas. Ou talvez sejam amarelas. De um amarelo desbotado pelas lavagens. Contempla por momentos a roupa a flutuar na brisa fresca da manhã e desaparece nos bastidores do palco do qual eu sou a única espectadora. De tempos a tempos chegam pessoas à esplanada. Mas é a história daquela mulher que me impede de pensar noutra coisa. A aparente normalidade sempre me fascinou. A regularidade dos gestos, a repetição dos afazeres, os hábitos, o vigor das coisas quotidianas que, como um fio preso a um centro, conferem sustentabilidade a um corpo e tapam a intempérie do que se é, o refúgio que só o próprio conhece. Na verdade, o que mais me agrada não é ver o que revela uma janela aberta, mas adivinhar o que se esconde por detrás de uma pequena fresta. Já em criança gostava que me contassem apenas o início das histórias, pois o que me dava verdadeiro prazer era continuá-la projetando a minha própria imaginação, tentar ver o que os outros não tinham visto.
A mulher regressa à janela com um molho de jornais numa mão e um recipiente com detergente limpa-vidros na outra. Perigosamente pendurada no parapeito da janela, começa a lavar os vidros. Estica-se, dobra-se, contorce-se. Usa a unha do polegar para raspar as sujidades mais persistentes, a ponta do avental para esfregar os cantos e os recantos. Profundamente imersa na limpeza, parece desafeiçoada de si, despojada de corpo. É uma ausência que prossegue, inconsciente do perigo a que se expõe. A cena é muda, eu sei. E também é verdade que todos os cenários podem contar histórias diferentes. Mas eu creio ouvir os lamentos do seu corpo esquecido dentro da pele. Um corpo, para quem o saiba observar, pode refletir os pensamentos tão bem como uma qualquer confissão. Traz sempre tudo o que tem dentro de si. Tudo o que não se quer contar. Silêncios, páginas, promessas, esperanças, amargos de boca, vazios, vontades entorpecidas, paixões errantes e, salvo raras exceções, um certo desdém pela vida. Em todos os corpos há sempre restos de passado por saldar, a permanente sensação de que algo se perdeu sem deixar rasto. Somos feitos do secreto pó de estrelas cadentes, que sendo tanto, não é nada. E é naquele corpo aparentemente esquecido, tragicamente debruçado sobre um poço de três andares, que reconheço a minha própria mortalidade.


domingo, 30 de julho de 2017

O futuro



A A. pertence a uma geração de heróis invisíveis. Vejo-a caminhar vagarosamente pela casa arrumando o que está fora do sítio. Enquanto passa a ferro, assobia alegria ou uma qualquer melodia que dança dentro dela. Tem a sola do sapato direito mais gasta do que a do esquerdo, as unhas pintadas de vermelho vivo e a realidade na ponta dos dedos. Manuseia-a com o mesmo à-vontade com que vira a roupa do avesso. Às vezes, o toque do telemóvel desfaz-lhe a melodia. E eu, não querendo escutar as conversas, apercebo-me de que a sua vida é difícil. Muito difícil. Mas ela, tal como faz com a roupa, alisa-a e endireita-a. Um dia, atenta à minha voz que arrastava uma tristeza fininha, pousou o ferro e abriu os braços para me oferecer um abraço. Deixei-me comover com a simplicidade do gesto, com o seu sorriso branco como a aurora, e enterrei a face no seu ombro, na suavidade da bata que cheirava a lavado e a coisas de mãe. Nunca esqueci aquele abraço. Estava na minha própria casa, mas foi ali, naqueles braços, que me senti acolhida. Ficamos algum tempo assim as duas, sozinhas na cozinha, sozinhas no verão, nos sonhos, nas adversidades. Sozinhas em todas essas coisas. E sozinhas em cada uma delas. Duas mulheres, uma só sombra no chão branco de uma casa perto do mar.
Perguntou-me, Porque chora? E eu respondi, Choro porque não sei aquilo em que vou tornar-me. O sol poente que entrava pela janela impregnava tudo de luz e os seus olhos castanhos ficaram tão claros que, dir-se-ia, podiam ver o mundo à transparência. O futuro é uma coisa que está mesmo à frente dos olhos e é por isso que mete tanto medo. O que brilha ao longe, é baço ao perto, disse. Desligou o ferro, puxou uma cadeira para que me sentasse e sentou-se ela própria noutra, diante de mim. Depois, começou a falar-me com uma voz baixa, abrindo as palmas das mãos como uma flor. O medo é sopro, respiração, vida. Mas é preciso ter coragem. A coragem não é apenas fazer frente à incerteza. Não é empurrar com todas as forças a bola pesada que se instala em cima do peito. A coragem é aceitar o que acontece e o que não acontece. Aceitar, não negar. É saber aceitar que se tem medo. Sim. A coragem é aceitar que se tem medo de ter medo. E é viver apesar de tudo. 
Não me lembro se ela me disse tudo isto assim, se o li nos seus olhos ou se sou eu que o invento no momento em que escrevo. Há muitas coisas que pensamos ter ouvido ou ter vivido e que nunca o foram. Mas a A. tem uma confiança serena em si própria e tudo o que diz, e não diz, tem para mim um significado profundo, quase espiritual. Foi com ela que aprendi, naquele fim de tarde, que o futuro faz parte da memória de todos nós.


domingo, 9 de julho de 2017

Abelha obreira



Enche o copo com água e leva-o aos lábios. Diz que me quer contar tudo sobre a sua guerra. Guerra, mas que guerra?, pergunto, surpreendida. Olho-a nos olhos, que são agora dois lagos de sombras. Uma ruga vincada surge entre as sobrancelhas e o rosto ganha novos ângulos e arestas. É minha amiga há anos, mas, por instantes, penso o quão pouco sei acerca dela. Os limites das outras pessoas estão muito para além do que podemos ver. A voz torna-se dura e as palavras ecoam como se fossem pedrinhas a rasgar-lhe o peito. Não sei se a compreendi bem. Não que não seja feita da mesma matéria, terra, água e rocha. Eu também sou feita de rocha, mas desfaço-me muito depressa em areia. Quando era mais nova, não gostava de ser assim, tão pouco aguerrida, sempre a tropeçar na própria indulgência. Mas também é verdade que muitas das certezas da minha vida se desfizeram como rochas. Um dia, aceitei o que não podia ser e voltei-me para dentro, para aquilo que precisava de ser.
Leio-lhe o ódio nos olhos, mas esforço-me por não julgar. Às vezes, preciso de ouvidos diferentes para escutar as outras pessoas. Ouvidos que ouçam mais os outros, e menos a mim mesma. Para não a magoar, tento disfarçar o meu desconforto. É-me difícil amar as pessoas no momento em que odeiam. Penso em vidro partidos, objetos metálicos que se entrechocam, sons que crescem e fazem doer os ouvidos. Faço-me invisível, quieta, acantonada das coisas. Mas isso é uma ferida minha. E as feridas são coisas imprevisíveis, como se sabe. Ora são uma abelha transida de frio, incapaz de voar, ora são uma abelha obreira, diligente, que mergulha na flor da dor para extrair o néctar mais doce. Sem saber como, estendo-lhe a mão e ela, com as mãos que estão em guerra, aperta-a com força. Então compreendo que dentro dela há também uma mulher assustada que chora.