domingo, 9 de julho de 2017

Abelha obreira



Enche o copo com água e leva-o aos lábios. Diz que me quer contar tudo sobre a sua guerra. Guerra, mas que guerra?, pergunto, surpreendida. Olho-a nos olhos, que são agora dois lagos de sombras. Uma ruga vincada surge entre as sobrancelhas e o rosto ganha novos ângulos e arestas. É minha amiga há anos, mas, por instantes, penso o quão pouco sei acerca dela. Os limites das outras pessoas estão muito para além do que podemos ver. A voz torna-se dura e as palavras ecoam como se fossem pedrinhas a rasgar-lhe o peito. Não sei se a compreendi bem. Não que não seja feita da mesma matéria, terra, água e rocha. Eu também sou feita de rocha, mas desfaço-me muito depressa em areia. Quando era mais nova, não gostava de ser assim, tão pouco aguerrida, sempre a tropeçar na própria indulgência. Mas também é verdade que muitas das certezas da minha vida se desfizeram como rochas. Um dia, aceitei o que não podia ser e voltei-me para dentro, para aquilo que precisava de ser.
Leio-lhe o ódio nos olhos, mas esforço-me por não julgar. Às vezes, preciso de ouvidos diferentes para escutar as outras pessoas. Ouvidos que ouçam mais os outros, e menos a mim mesma. Para não a magoar, tento disfarçar o meu desconforto. É-me difícil amar as pessoas no momento em que odeiam. Penso em vidro partidos, objetos metálicos que se entrechocam, sons que crescem e fazem doer os ouvidos. Faço-me invisível, quieta, acantonada das coisas. Mas isso é uma ferida minha. E as feridas são coisas imprevisíveis, como se sabe. Ora são uma abelha transida de frio, incapaz de voar, ora são uma abelha obreira, diligente, que mergulha na flor da dor para extrair o néctar mais doce. Sem saber como, estendo-lhe a mão e ela, com as mãos que estão em guerra, aperta-a com força. Então compreendo que dentro dela há também uma mulher assustada que chora.


terça-feira, 4 de julho de 2017

Palavras são factos



Podemos esquecê-las, podemos até esquecer quem as proferiu, mas o seu sentido perdurará para sempre em nós. Para o bem e para o mal.


domingo, 2 de julho de 2017

Como viajantes perdidos




O amor rouba-nos a biografia. É como se, antes, não tivesse existido ninguém, nunca tivéssemos beijado, abraçado, estado com outro corpo. O amor separa-nos do resto da nossa história. Exila-nos do passado. Deixa-nos suspensos no tempo, presos ao fio de um nome, como um balão enlaçado nos troncos de uma árvore. O tempo diferencia-se apenas pela presença ou pela ausência do ser amado. A vida torna-se espera - espera do próximo encontro -, como se estivéssemos debaixo de água, onde cada movimento exige um esforço. Como que por milagre, voltamos a ser um corpo que nunca foi tocado, uma alma branca por escrever, uma vida por encetar. Amnésicos, atemporais, imersos na nossa própria subjetividade, vagueamos pelo mundo como estrangeiros. Compramos jornais que não lemos, ouvimos conversas que não escutamos, olhamos para coisas que não vemos. Abrimos um livro e as letras, indecifráveis, parecem-nos formigas espalmadas nas páginas. O que buscamos são apenas correlações: músicas, filmes, poemas, metáforas, símbolos que nos falem de amor. Tudo o resto são trivialidades, juízos, opiniões inúteis, coisas desapaixonadas. Estamos no mundo e não estamos. É como se um tilintar distante nos desviasse constantemente a atenção, como se pequenos anzóis agarrados à pele nos puxassem para o sítio onde não estamos, mas onde gostaríamos de estar. Estamos sempre de partida, apressados, sem tempo. Toda a energia se consome a sonhar, a imaginar, a esperar pelo ser amado. Desprovidos de mapa, relógio ou bússola, somos viajantes perdidos, com um pé no mundo e outro numa jangada, que, num oceano secreto, ruma em direção a um destino que só nós pressentimos.

[Baseado no livro O amor é uma droga dura de Cristina Peri Rossi]