sexta-feira, 30 de junho de 2017

Solidariedade masculina



A população do café rejuvenesceu com o início das férias escolares. Em quase todas as mesas há crianças que tomam o pequeno-almoço com os avós. Na mesa ao lado da minha, há também uma avó, um avô e um neto. Este deve ter cerca de oito, nove anos e parece contrariado. A avó fala-lhe com uma voz monocórdica que, por vezes, revela um ligeiro tremor. Diz-lhe que, ao fim do dia, para o jantar de família, terá de vestir uma camisa. O neto franze a testa e abana a cabeça em discordância. Cruza os braços, zangado, e insiste em levar a roupa que tem vestida, uns calções de ganga e um pólo azul. O avô mantém-se à margem, fixando o galão, de queixo metido para dentro, aparentando uma calma circunspecta. A avó, conciliadora, mas firme, faz uma festa no braço do neto, dizendo-lhe que gosta muito dele, que gosta também muito de lhe fazer as vontades, mas que, desta vez, não será possível, porque há regras, há códigos que devem ser respeitados. Depois, retira o porta-moedas da mala e dirige-se ao balcão para efetuar o pagamento. O neto, aproveitando o breve momento a sós com o avô, não perde oportunidade de o elucidar.
- Oh, avô. A avó é uma mandona! E tu és a principal vítima!


quarta-feira, 28 de junho de 2017

A única flor que se ergue no prado



Às vezes, pergunto-me como viver sem pressa e, contudo, beber cada momento com urgência. Como encontrar um fogo, por mais trémulo que seja, na vida de todos os dias? Como escapar ao automatismo das tarefas diárias, tantas vezes repetidas? Ao padrão dos compromissos mecanicamente anotados na agenda, como se a vida pudesse ser passada para o papel? Eu, que tantas vezes confundo agitação com vida, que passo demasiado tempo fora de mim, atordoada com burburinhos exteriores, esqueço-me que a consciência mais não é do que o contacto comigo própria. E sem ela não posso ser tão livre como gostaria. Saber que estou, aqui e agora é, no fundo, ir buscar a sabedoria ao fundo da simplicidade de cada dia. Porque não há dois dias iguais. É colocar punhos de renda no presente e deixar que ele me abrace. É ver a única flor que se ergue no prado. É saber transformar a vida num agora prolongado. Porque uma vida, enquanto não é vivida, é apenas uma vida em potência. É uma narração dada por outros, mas não escolhida por mim.


As histórias de amor



Todas as histórias de amor são curtas, mesmo quando duram uma vida inteira.