sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Memorando


Foto tirada daqui


Teria oito ou nove anos quando comecei a pensar no envelhecimento. Via as fotografias de casamento da minha avó e pensava, ah, era assim que ela era. Depois, olhava para o seu rosto enrugado e pensava, ah, e é assim que ela ficou. Espantada com a pertinência da minha observação, decidi esquadrinhar essa força estranha que transformava a fisionomia das pessoas com o passar dos anos. Assim, comecei a dedicar algum do meu tempo a estudar os restantes membros da família. Passei alguns momentos a observá-los, como se tivesse um aquário à frente do nariz. Interessavam-me especialmente as mulheres. Segundo a minha teoria, todas as mulheres da família ficariam iguais à minha avó: altas, magras, de cabelos lisos e brancos. Olhava para as minha mãe e para as minhas tias e, descobrindo uma ruga aqui, um cabelo branco acolá, a roupa mais solta, um olhar mais melancólico, concluía que se tratavam de indícios que confirmavam precocemente a minha tese. Num dia em que recebi a visita de uma prima mais velha, que, de acordo com o credo da altura, ficaria para solteirona, eis que me surge uma nova questão. E as mulheres que não têm filhos, como envelhecerão elas? Certamente que de uma forma muito diferente, pensava eu dentro de uma lógica que, hoje, ignoro completamente. Foi, então, que dividi meia humanidade em dois grandes grupos: as mulheres que tinham filhos e as que não tinham filhos. E se para as casadas e com filhos eu tinha já um modelo, a minha avó, para as outras, não tinha nenhum espécime de comparação. Todas as idosas da família tinham tido filhos. Com algum pesar, constatei que só me restava esperar que a minha prima envelhecesse. Lembro-me de pensar que tinha sorte por ser mais nova e poder acompanhar esse processo. Por isso, e antes que o esquecimento trocasse as voltas à ciência, decidi consagrar a minha vida ao estudo empírico, escrevendo no meu diário a seguinte nota: “ Vou estar com muita atenção para não me esquecer de observar como é que a minha prima M. vai envelhecer. Não me posso mesmo esquecer”.
Descobri esta pérola quando, há dias, remexia num baú de coisas antigas.


9 comentários:

  1. E como é que ela envelheceu? :)
    Este texto lembrou-me a minha avó, mãe da minha mãe, que dava os melhores abraços chi-coração. Sobre o piano, estava um retrato dela jovem, só que com um ar tão severo que não era a nossa avó!

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  2. Envelhecer é um problema cronológico, ou um estado de espírito?
    Um beijinho, Miss Smile,
    Mia

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  3. Que gostoso achar o que escreveu e não lembrava mais de o ter feito, e assim poder recordar uma fase tão gostosa da infância.
    Sônia.

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  4. Interessante pensamento. Há uma aforismo que diz:«Se queres ver como vai ser a tua mulher quando envelhecer, olha para a mãe.» Será?

    Beijinhos e... não nos preocupemos com o envelhecimento - é um traço natural como muitos outros...

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  5. Creio que nunca pensei muito no envelhecimento, nem ligava muito a isso, até agora.

    A imagem que escolheu é muito gira:)
    Bom fim-de-semana:)

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  6. Miss Smile, gostei muito desta forma que lhe ocorreu em olhar o envelhecimento das mulheres da sua família. E quando chegar a uma conclusão conte-nos da sua tia que não teve filhos.

    Curiosa que eu sou!

    Beijinhos e bom domingo.

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  7. Muito bom! Reler diários (próprios) é excelente e permite este novo encontro connosco mesmos. Bom Domingo!

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  8. Miss Smile, é impossível combater a gravidade e o tempo.
    Não me assusta envelhecer, o que me assusta é perder a dignidade física e mental, e consequentemente tornar-me numa massa dependente.
    Gostei muito de a ler. Desde tenra idade que Miss Smile tem uma visão lata da condição humana.
    Fica um beijo com estima e amizade.

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