terça-feira, 17 de novembro de 2015

Como um narrador


Foto tirada daqui

Caminho ao longo do pinhal cheiroso. Ao longe, avisto pessoas por entre as árvores. Passeiam cães que, hirtos de indignação, puxam de lado as trelas. Avanço a passos curtos num caminho arenoso que se afunda suavemente por baixo dos meus pés. O vento, carregado de maresia, despenteia-me os cabelos e assobia-me melodias ao ouvido. Ao longe, no mar, vejo os barcos a mover-se na água. O sol espreita entre as nuvens. Pressinto-o perto, a aquecer-me as costas. Sinto o sangue a circular-me nas veias. A vida a pulsar nesta porção de península, entre o céu e o mar. Um casal de namorados avança na minha direção, ignorando a minha presença, sozinho que está no mundo. Sinto o prazer de estar ali. Um prazer encorpado e vivificante. Subitamente, ouço passos rápidos que eclodem e se avolumam à medida que se aproximam. Duas crianças passam por mim, apressadas, também elas alheias à minha existência, imersas nas suas brincadeiras de faz-de-conta. Pouco depois, um casal, que tomo pelos pais das crianças, passa por mim e, interrompendo o diálogo por breves instantes, cumprimenta-me sem me olhar. Estou contente por estar ali. Deixo a imaginação esvoaçar ao vento e seguir o rasto dos destinos que passaram por mim. Como um narrador, invento os seus retratos e as suas inquietações. Dou-lhes nomes e biografias. E quando a noite começa a cair, não se sabe de onde, retorno a casa para anotar as vidas que roubei ao vento.

(Texto reeditado)


14 comentários:

  1. É essa, tão boa, a sensação de estar vivo, de fazer parte, de pertencer — que, às vezes, nos toma assim, de assalto bom.

    Um beijinho, Miss Smile. E um dia feliz :)

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    1. A consciência que somos todas as coisas.

      Um beijinho, Linda, e um resto de dia feliz :)

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    1. Que bom! O passeio também foi dado com muito gosto :)

      Um abraço, Carlos

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  3. Um texto fantástico que traduz muito do que, por vezes, consigo sentir.

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    1. Todos temos, por vezes, este sentimento de pertença que nos regenera por completo.

      Um beijinho, TT

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  4. Apreciei particularmente a quietude deste texto. Uma vida que se sente, que sabe bem e não incomoda.
    Beijo, Miss Smile.

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    1. Foi exatamente isso que senti.

      Um beijinho, Isabel

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  5. Se eu disser que muitas vezes me vejo na mesma quietude, olhando em redor, imaginado histórias para "colar" a quem passa, pareço pretensiosa? É um texto muito melodioso, Miss Smile.
    Um beijinho,
    Mia

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    1. Não me parece nada pretensioso. Acho até bastante natural e, até, recomendável :)

      Um beijinho, Mia

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  6. Vi marcas de crianças junto a castelos abandonados, vi bandos de impressões digitais de gaivotas que já tinham voado, vi junto à água o rasto de um barco antes de se fazer ao mar, vi marcada no chão a barbatana de um mergulhador que voltara da pesca, vi as brincadeiras dos cães na confusão de riscos e patas, vi o desenho nítido da última onda antes da maré vaza, e ia jurar que também vi as tuas pegadas, mas entretanto anoiteceu.

    Um beijinho com a lua a espreitar.

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    1. Tenho a certeza que vistes tudo isso.
      Só tive pena que nos tenhamos desencontrado. Teríamos dado um belo passeio juntas :)

      Um beijinho, Teresa, e uma boa noite

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  7. Um narrador atento ao pormenor.
    Que nos encanta.
    Beijinhos

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    1. Não nos podemos distrair. Nunca :)

      Um beijinho, Pedro, e uma boa noite

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