quarta-feira, 1 de abril de 2015

Somos invisíveis, mesmo de pijama cor-de-laranja

Ontem de manhã, ia a caminho de uma consulta quando me deparei com uma senhora de idade bastante avançada, vestindo um pijama cor-de-laranja, a atravessar uma via rápida, fora de qualquer passadeira. Apoiada numa bengala, caminhava lentamente, correndo o risco de ser atropelada. Os carros abrandavam, desviavam-se ou contornavam-na sem, no entanto, parar. Alertada pelo insólito da situação, reduzi a velocidade e encostei o carro na berma. Dirigi-me, em seguida, à senhora que, por milagre, tinha atravessado a estrada, incólume. Abordei-a, mas ela mal me ouviu. Parecia transtornada e confusa. Voltei a insistir ao mesmo tempo que lhe amparava o braço. Perguntei-lhe onde morava, oferecendo-me para a levar a casa. Lá acabou por me dizer onde morava. De acordo com as minhas contas, encontrava-se a 2 km de casa. Perguntei-lhe ainda para onde ia, mas não consegui compreender as palavas que disse de forma algo atabalhoada. Estava eu a pensar no que fazer quando vejo um carro da polícia a aproximar-se. O carro encostou imediatamente na berma, seguido de outro carro, de onde saíram duas mulheres em pranto. Minutos depois, fiquei a saber que se tratava da filha e da neta da senhora que, logo após darem pelo seu desaparecimento pela manhã, alertaram a polícia e iniciaram a sua busca nas imediações. Ainda com o desespero estampado no rosto, abraçaram a velhota que se mostrava algo apática face a todo aquele rol de emoções. Por fim, já mais calmas, agradeceram-me efusivamente, ajudaram a velhota a entrar no carro e partiram. Voltei também para o carro e retomei o meu percurso, mas fiquei a pensar neste assunto o dia todo. Como é possível que uma pessoa idosa, de aspeto frágil e incoerente, que se coloca à frente dos carros numa estrada movimentada, não desperte a atenção de ninguém? Como é possível que ninguém se tenha afligido com o facto de uma pessoa, em estado visivelmente debilitado, estar a pôr em risco a própria vida daquela maneira? Como é possível que ninguém tenha pensado que aquela pessoa que, estranhamente saíra à rua de pijama, podia não estar em pleno poder das suas faculdades mentais e que precisava de ajuda? Que desumanização é esta que desfoca o nosso olhar, transformando os outros numa massa alheia e amorfa? Que nos impede de olhar o nosso semelhante com o coração? Porque nos deixamos alienar desta forma, esquecendo que, um dia, poderemos ser nós a “atrapalhar” o trânsito naquela ou noutra estrada qualquer? 


Cityscape, Tarsila do Amaral, 1886-1973

 





18 comentários:

  1. Cada vez se vive mais com o síndrome do pensamento acelerado, a alienação e desumanização estão implicitamente instauradas. Porquê? O que se passa com as pessoas? São perguntas para as quais, tristemente, não encontramos respostas objectivas.
    A vida é tão curta, que não se justifica correr tanto; caminhar sem olhar para a berma.
    A vida é mais plena quando somos amparo, semeamos sorrisos, damos abraços.
    Beijinhos Miss Smile

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    1. Acho que nos esquecemos, demasiadas vezes, de desligar o nosso “piloto automático”. Perseguimos, desnorteados, meras quimeras e esquecemo-nos que o essencial, o nosso norte, está, na maioria das vezes, mesmo à nossa frente, ao alcance do nosso olhar.
      Um beijinho

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  2. Coloca boas questões, Miss Smile. Como dizia o Sebastião Salgado numa entrevista recente, "Somos uma espécie que não merece viver".

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    1. G., em breve quero ir ver o filme de Wim Wenders sobre Sebastião Salgado, “O Sal da Terra”. Quanto ao que disse na sua recente entrevista ao jornal Expresso, compreendo que o diga, pois as suas fotos, para além de maravilhosas, são realmente um murro na alma ao mostrarem a crueza do sofrimento provocado pelo próprio homem. Mas quando desvio o olhar da objetiva de Sebastião Salgado, consigo ver também muitos gestos de beleza, solidariedade e fraternidade com que certos homens e mulheres honram a nossa condição humana diariamente.
      Um beijinho

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    2. Bem de certo, até porque, é em momentos de maior crise, que se vê o lado melhor de muita gente (e o pior de outra). A minha descrença talvez venha do excesso de informação dramática que vejo todos os dias. Podem dizer-me que só se fala nessa, porque é a que vende, mas isso não invalida a sua existência. Talvez nada tenha que ver com a época, que seja da minha própria vivência, da fase que atravesso, mas nunca como agora, tive a noção de que a vida humana, um verdadeiro milagre, cada vez tem menos valor.

      Um beijo

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    3. Mas compreendo perfeitamente o que diz.
      Um beijinho

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  3. Pergunta bem :) Tantas perguntas!!
    Mas houve alguém que parou e deu atenção a essa senhora que estava "perdida"... a Miss Smile :)
    E é bom saber que afinal ainda há pessoas que se preocupam com as outras :)
    Parabéns por esse gesto tão bonito :)

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    1. Sandra, eu própria já devo ter passado por inúmeras situações desta natureza sem ter olhado com o coração :( Resolvi contar esta história aqui, não para enaltecer o meu gesto, até porque, felizmente, esta senhora pareceu-me ter uma família que se preocupa e que atuou rapidamente, mas para chamar a atenção – a minha incluída – para a importância do nosso comportamento no dia-a-dia. Os nossos pequenos gestos podem fazer milagres.

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    2. Eu percebi a sua mensagem, e também concordo :)
      Mas também queria realçar a sua atitude :)
      Porque no meio de tanta "miséria", temos que ver que (ainda) não é "tudo" igual.

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    3. Obrigada :)
      Um beijinho

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  4. Tão triste!
    A indiferença, a demência senil, o desespero dos familiares! Tudo de uma tristeza imensa!
    Dói falar destes casos! Dói que se farta!
    Beijo

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    1. É muito triste, sim. Nós nem imaginamos o sofrimento que se desenrola no resguardo das quatro paredes. O sofrimento da própria doente e dos seus familiares. Quem quis e soube olhar, naquela via rápida, teve apenas um pequeno vislumbre da incomensurabilidade do sofrimento humano.
      Um beijinho

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  5. Ainda bem que parou Miss Smile.
    Algo que gosto muito aqui na cidade do Porto é ter visto muitas vezes o espírito de entre-ajuda em desconhecidos.
    um beijinho

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    1. É muito gratificante ver esses gestos de interajuda. Fazem-nos sentir menos sozinhos :)
      Um beijinho

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  6. :( É verdade... infelizmente o ser humano em vez de caminhar para a frente, caminha cada vez mais par ao seu umbigo! Eu acho que muitas vezes essa reacção de "não reacção" é o não querer ver, é o não saber como lidar quando alguém precisa de ajuda... :( É o não querer sair do "seu mundo protector" mesmo que não o seja... Não sei... a mim faz-me pensar muito e assusta-me para onde se caminha...
    Sorte dessa senhora ter encontrado a Miss Smile, ou melhor se ter cruzado com ela na vida, naquele dia! :)
    Boas leituras! :)

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    1. É verdade, resistimos muitas vezes a sair da nossa zona de conforto.
      Um beijinho

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  7. Aborda dois assuntos que infelizmente cada vez mais flagela as nossas sociedades: a alienação que se vive nas grandes/médias cidades e a indiferença para com os mais idosos. No primeiro caso, o indivíduo desculpa-se com a falácia que outro alguém há-de resolver o problema, demitindo-se das suas obrigações de cidadania. No segundo a questão é ainda mais grave: em plena luz do dia, os idosos vêem-se diminuídos nos seus direitos de simplesmente existir. Uma vergonha que jamais aconteceria numa vila ou aldeia onde o sentimento de pertença e de comunidade é muito mais coeso.

    Veja outro caso (interpretado por actores) em que o que difere é a simples aparência:

    https://www.youtube.com/watch?v=SGPjUyVtTQw

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    1. Paulo, obrigada pelo vídeo que não conhecia. É realmente flagrante e complementa o que escrevi aqui. As reações dos transeuntes desnudam a face sombria da nossa sociedade em que a solidariedade e a identificação com o outro ser humano estão cada vez mais em risco. E tem razão quando diz que este fenómeno é mais visível nas grandes e médias cidades, onde a falta de raízes contribui para que nos tornemos cada vez mais categorias: novos, velhos, bem-sucedidos, falhados, etc. O vídeo exemplifica bem como nos regemos por essas categorias e pelas aparências.
      Um beijinho

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