terça-feira, 7 de abril de 2015

Ovelhas em pele de urso


 


O céu está coberto de um manto cinzento, denso e pesado. Escuto as solas dos meus sapatos a chiar na neve. O vento inclina as árvores e varre a brancura ténue dos flocos. Aproximo-me da culatra do rebanho emparelhado que aguarda pacientemente que o sinal fique verde para atravessar a estrada. Compenetrado, com o olhar fixo num qualquer ponto invisível, avança, determinado a chegar são e salvo ao destino. Esmaga a neve com passadas precisas e decalcadas. Caminha mansamente, protegido por casacos espessos, forrados com pele de urso. Olho para os seus rostos indolentes e fugidios. Nem um olhar. Nem um sinal. Não rosnam, não latem, não rugem, não voam. Desisto. Deslizo na neve e deixo-me fundir na vida dos outros, na estranha realidade da existência alheia.   


6 comentários:

  1. Poderia ser uma realidade perfeita da sociedade dos tempos de hoje.... um "rebanho" individual, cada um no seu caminho e tudo à volta é decoração da estrada da SUA vida! :(
    Boas leituras!:)

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  2. Saio daqui com frio, mas com o coração aquecido por este texto.

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  3. Poderia ser algo que acontecesse num sonho ou num pesadelo e fiquei curiosa sobre o que poderia acontecer depois, sobre o que se procurava e não se encontrou e se se poderia ainda encontrar.

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    1. Provavelmente, o que se poderia encontrar e não se encontrou, fundiu-se para sempre sob os passos apressados da multidão.
      Um beijinho

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