sexta-feira, 24 de abril de 2015

A vida atrás da vitrina


Foto do fotógrafo Saul Leiter

Entro num Kaffeehaus e escolho uma mesa junto à vitrina. A luz cria uma impressão sépia, transmitindo a sensação de se estar num tempo mais antigo. Nas mesas simetricamente distribuídas pela sala estão velhotas simpáticas, de chapéus festivos, bebendo golinhos de cacau quente e chilreando inconfidências. Lá fora, os flocos de neve cobrem os passeios de uma alcatifa branca. Os transeuntes caminham ligeiros, deitando fumo através dos narizes vermelhos que assomam por entre os capuchos dos casacos. Vão ao encontro da sua história que os aguarda, caseira, algures. Dispo o casaco e penduro-o no bengaleiro. Ninguém me olha, ninguém me conhece. Deixo-me embalar pelo calor espesso dos aquecedores e começo a ensaiar mentalmente o pedido. “Ein Expresso, bitte”. Repito-o, duas, três vezes, enquanto a empregada se aproxima a passos entediados da minha mesa. De semblante fechado, boca comprimida, fixa o olhar nos meus lábios, como se os pretendesse ler. Recito o pedido sem gaguejar. Regressa daí a pouco com o café que coloca cerimoniosamente sobre a mesa. Eu agradeço, repetindo “danke” como uma criança. “Möchten Sie gleich bezahlen?” (Deseja pagar já?). Estremeço. Não estava à espera de nova investida. Digo que sim, ainda não refeita da surpresa. É preciso uma acuidade constante, uma atenção cautelosa. É preciso medir sempre o que se pensa ter percebido e saber interpretar mais do que entender. E mais do que isso, é preciso aceitar que a barreira linguística encobre uma história vivida num outro lugar, apesar de as palavras que a explicam se insinuarem através da pele. Será isto ser estrangeiro? Nesta cidade, ninguém sabe de onde venho, que história, lugares e laços explicam o que sou. É como viver uma vida paralela, do lado de dentro de uma vitrina, a olhar para a cidade que se inscreve sem mim. Visto o casaco e saio para as ruas brancas. Vou à biblioteca. Vou construir uma história que me pertença só a mim.


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